O misterioso desaparecimento de Marco Aurélio

Marco Aurélio, o desaparecido. Ivo Simon, o pai que envelhece sem perder a esperança

Por Paulo Antônio 20/06/2017 - 15:47 hs
O misterioso desaparecimento de Marco Aurélio
Marco Aurélio, o desaparecido. Ivo Simon, o pai que envelhece sem perder a esperança


Passados 37 anos, a família do escoteiro Marco Aurélio Simon não perde a esperança de reencontrá-lo. O caso está na lista mundial dos maiores mistérios envolvendo desaparecidos. Cercado de suposições e de versões, o sumiço do então adolescente de 15 anos ainda repercute. Estaria morto, teria desaparecido por vontade própria, sequestrado ou sido abduzido?  Não há respostas.

          Tarde de sábado, 8 de junho de 1985. Marco Aurélio segue rumo ao cume do Pico dos Marins, em Delfim Moreira (MG). No grupo de escoteiros também estão os garotos Ricardo Salvione, Osvaldo Lobeiro, Ramatis Rohm e o líder e instrutor Juan Bernabeu Céspedes. Num trecho íngreme da trilha, Oswaldo Lobeiro sofre torção num dos joelhos. Impedido de seguir adiante, o grupo decide retornar à base.

         Contrariando as recomendações do escotismo, o líder Juan Bernabeu permite que Marco Aurélio siga na dianteira, sozinho, em busca de ajuda. Desde então, é dado como desaparecido. “Em nenhum momento eu considerei meu filho morto”, diz repetidas vezes Ivo Simon, o pai. Consultado, Chico Xavier respondeu: “me comunico apenas com os mortos”, alusão que mantém viva a esperança da família de reencontrar o garoto.

          Estive lá. Fui o único jornalista a acompanhar as buscas do começo ao fim durante quase um mês no rigoroso inverno de 1985. Perto de completar 40 anos de profissão, essa a maior e mais emocionante reportagem de minha carreira, experiência inesquecível. Observando o trabalho de campo dos soldados da PM, do Exército, da Aeronáutica e de voluntários, posso concluir que, morto estivesse, o corpo seria encontrado.

          Na tarde de segunda-feira (10), logo que recebi a informação de mais um desaparecido no Marins, entrei no carro da Rádio Mantiqueira e segui. Quando cheguei, encontrei Juan Céspedes e alguns policiais. Na entrevista, a primeira, Juan contou detalhes, os mesmos que ele repetidas vezes citou nos depoimentos à polícia.

        Sobre o líder recaia a suposição de assassinato. Estivesse mentindo, Juan não suportaria as investidas e aos métodos do delegado Isidro Ferraz e dos comandantes das equipes de buscas. Nas salas de depoimento ou na reconstituição nas trilas, nada que pudesse exaltar contradições de Juan Céspedes e dos outros três escoteiros.

           No início, eu imaginava mais um dentre muitos casos registrados no Marins de desaparecido localizados horas ou dias após. Quanto mais o tempo avançava, maiores a tensão, o mistério e repercussão seguida de especulações. Fuga da família, sequestro, abdução ou assassinato. Resposta seria necessária, daí o desafio imposto às equipes de socorro.

             A partir da segunda semana de buscas, somavam centenas os soldados, os curiosos, os mateiros, os videntes e ufólogos. As versões dos escoteiros sobre luzes azuladas e de apito característico de escoteiro ecoando da mata na noite do dia 8 de junho aguçaram as suposições de ufólogos. “O garoto foi abduzido, levado por extraterrestres”, comentavam. Videntes, por sua vez, revelavam sequestro praticado por seita religiosa. Outros falavam em fuga. Ninguém admitia morte.

              Não havia evidências de assassinato ou de ataques ferozes. Onças e bandos de porcos do mato deixariam rastros. No cardápio dos animais, roupas, calçados, cantil e outros utensílios não entram. Certamente, seriam encontrados. Em caso de queda em alguma das valas entre rochas, a decomposição do corpo geraria forte odor e os urubus indicariam o local.

              Enquanto jornalistas apareciam apenas nos finais dos dias em busca de notícias, optei enfrentar as geladas madrugadas enrolado no cobertor no carro de reportagem da emissora, ao lado acampamento dos soldados, no pátio da casa do Afonso, ponto de partida para as expedições ao cume da montanha.

             Salsicha enlatada saciava a fome e a garrafa de conhaque ajudava a aquecer.  Dentre vários repórteres, a freelancer Rosana chegou de motocicleta num final de tarde. Sem nenhum aparato para enfrentar o frio, apenas com uma câmara fotográfica, a jornalista falava em dormir no acampamento para acompanhar as buscas na manhã seguinte.

             A pequena casa do Afonso sem espaço para mais um, nas barracas dos soldados jamais seria aceita; coube-me dividir com ela o cobertor e o conhaque. Lado bom é que o cardápio foi diferente naquela noite, de pão com queijo e presunto levado pela free. A reportagem de Rosana ocupou bom espaço numa revista especializada em ufologia. Mais uma dentre muitas que foram parar nas páginas de jornais, de revistas, de livros e telejornais de todo o planeta.

             Por minha conta, o sacrifício das noites compensava o tino jornalístico de, logo no início da manhã seguinte, ser o primeiro a transmitir informações. Atento a todos os detalhes das buscas, das suposições e das investigações, minhas reportagens ao vivo da base do pico elevaram ao topo a audiência da Mantiqueira.

             No dia 7 de julho, um domingo, após longa varredura empreendida por mais de trezentos homens entre oficiais e voluntários, as buscas foram encerradas. Vivo ou morto, Marco Aurélio não estava no Marins. O mistério, um dos maiores do mundo, segue. A esperança da família também.















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