Revolução de 32 gerou retrocesso em Cruzeiro

Por Paulo Antônio 10/07/2017 - 09:05 hs

No início da década de 1930, Cruzeiro comemorava 61 anos de fundação com o rótulo de um dos municípios mais promissores do interior de São Paulo. Dos cerca de 25 mil habitantes na década anterior, a população avançava rapidamente para mais de trinta mil

A cidade via surgir o Capitólio e os prédios das Oficinas da Rede, da AGEF e da Rotunda, o maior conjunto de obras de todos os tempos. A Maria Fumaça chegava com seus vagões lotados, trazendo consumidores e novos investidores. Das notáveis chaminés do Frigorífico Bianco a fumaça era como saudação ao franco desenvolvimento econômico.

Em meio ao otimismo motivado pelas excelentes perspectivas, de um instante para outro, a cidade se tornava centro dos confrontos armados entre soldados paulistas e federais a partir de meados de julho de 1932. Sitiada, Cruzeiro parou durante os combates.

A Revolução Constitucionalista pôs a cidade nas páginas de uma das mais importantes histórias brasileiras, mas também reservou consequências negativas. Por conta da revolta paulista, da célula comunista e do forte Sindicato dos Ferroviários, Cruzeiro arcou com as represálias de Getúlio Vargas nos anos que se seguiram.

Habituada ao frenético movimento de pessoas, proporcionado pelo entroncamento ferroviário, Cruzeiro enfrentou meses de angústia durante e após os combates.  Devido à interdição das ferrovias e à destruição do sistema de telefonia, a cidade ficou isolada. Em baixa, o fluxo econômico seguiu lento nos anos seguintes. O pior ainda estava por vir.

Em dezembro de 1932, na viagem de trem entre Rio e São Paulo, o presidente Getúlio Vargas não teve como ignorar a passagem por Cruzeiro. Ao visualizar grande concentração de pessoas na Estação Central, indagou aos seus assessores: “que cidade é esta?”. De Oswaldo Aranha, a resposta; “É Cruzeiro, a Moscouzinha Brasileira”. “Sim, foi aqui que nós aniquilamos os paulistas”, observou Vargas.

Nesse tempo, Cruzeiro figurava no mapa das cidades monitoradas pelo setor de inteligência do governo federal devido ao forte contingente comunista infiltrado na Associação 23 de Agosto e na imprensa. Fundada em 1922, a associação atuava em defesa dos trabalhadores da Light, do frigorífico e da estrutura ferroviária. A entidade também camuflava os integrantes do PCB (Partido Comunista do Brasil), liderado pelo carioca Hermogênio Silva.

Por influência de Hermogênio, funcionário da Light, o movimento comunista cruzeirense, iniciado em 1917, foi um dos primeiros do País na linha política soviética e de destacada importância na fundação do PCB em 1922 em Niterói (RJ). Berço de uma das primeiras células comunistas no Brasil, Cruzeiro ganhou de Oswaldo Aranha o rótulo de a “Moscouzinha Brasileira”.

Em 26 de março de 1933, foi fundado o Sindicato dos Ferroviários de Cruzeiro. Braço do sindicato carioca e influenciado pelos movimentos políticos liberais, o sindicato local logo se tornou um dos mais fortes do triângulo Rio - São Paulo – Minas. Pouco antes da fundação do sindicato, o jornalista Durval Pereira lançou no dia 22 de janeiro o Jornal O Momento, em defesa dos trabalhadores e com foco na pregação da política socialista.

As forças de Getúlio Vargas tudo fariam para conter o avanço comunista no País. Um dos focos, Cruzeiro registrou várias investidas policiais contra os comunistas notadamente a partir de 1935, durante a ascensão da Aliança Nacional Libertadora. Além dos comunistas, o governo Vargas também estava disposto a uma resposta mais cruel aos paulistas por conta do levante de 1932. Não havia como Cruzeiro ficar à margem da opressão getulista.

Em 32, para contar com a adesão de Minas Gerais, Getúlio Vargas havia selado acordo de investimentos federais em solo mineiro. Em 1936, quando a Rede Mineira de Viação decidiu transferir as Oficinas da Estrada de Ferro e o Escritório Central de Cruzeiro para Divinópolis e Belo Horizonte, o governo Vargas não conteve apoio. A desativação em Cruzeiro também levaria para Minas a maioria dos funcionários da ferrovia, ocasionando o enfraquecimento do sindicato da categoria, onde estavam infiltrados os líderes comunistas.

Revolução e comunistas -  “Com uma única paulada, Vargas mataria dois coelhos”, observou em 1986 o jornalista José Campos durante entrevista a respeito de suas memórias da história de Cruzeiro.

Segundo relatava o jornalista, outro detalhe histórico a decadência do Frigorífico Bianco. “Em 1933 ou 34, o frigorífico era uma potência. De repente, começou a perder fornecedores e clientes no Rio de Janeiro e em São Paulo não por conta da qualidade e dos preços praticados. Todos desconfiavam de ações sigilosas a mando de Getúlio não contra Cruzeiro apenas, muito mais contra a economia paulista”, observava o jornalista.

A transferência das oficinas, do escritório central e a decadência do Bianco geraram colapso em Cruzeiro. De um momento para outro, a cidade mergulhou numa crise profunda.

“Imaginem uma cidade em rápido crescimento que, num curto espaço de tempo, de três ou quatro anos, perde toda sua base econômica. Foi uma depressão enorme. Cruzeiro passou a depender do comércio e mais ainda do dinheiro gerado pela zona do meretrício”, contava Campos.

Na beira da falência, o Bianco foi comprado em 1935 por Theodoro Quartim Barbosa e Caio Paranaguá Muniz. No entanto, a retomada da produção do Frigorífico Cruzeiro, como passou a ser chamado, ocorreu apenas na virada para a década de 1940.

Com a instalação da FNV (Fábrica Nacional de Vagões) a partir de 1942, no prédio das extintas Oficinas da Rede, Cruzeiro pode retomar o ritmo de desenvolvimento. “Nesse período, havia acabado o ciclo de represálias de Vargas a São Paulo”, revelava José Campos.

 















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